terça-feira, 3 de setembro de 2013

DEUS NÃO TEM 0800

As empresas de grande porte têm “0800” voltado exclusivamente ao interesse do cliente. Através do SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor – a linha telefônica recebe reclamações sobre produtos que apresentaram algum tipo de defeito e tem seu uso prejudicado. O 0800 é, portanto, um Serviço que se presta a resolver problemas.
Deus não tem nenhum SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor – cuja letra C poderia muito bem significar a palavra Crente. Ou seja, Deus não tem nenhum Serviço de Atendimento ao Crente para atender reclamações e solicitar providências celestiais para encaminhar soluções na terra. A despeito disto boa parte do mundo chamado evangélico parece trabalhar com a ideia de que Deus resolve todos os problemas dos crentes, bastando ligar para o “0800 celestial” através da oração.
É lógico que as igrejas que trabalham com essa proposta “cobram” do usuário uma pequena taxa para instruí-lo a fazer uso correto do “SAC-celestial”, extorquindo e espoliando a vida dos fieis.
Biblicamente falando Deus nunca prometeu resolver os problemas dos crentes de forma tão generalizada como atualmente se pensa ou se propaga pelo mundo evangélico. O que se pode aprender da Escritura é que ela dá sabedoria aos que meditam nela, e isto para que essa sabedoria ajude o crente tanto a evitar problemas, como a resolver muitos deles, sendo esta a regra geral.
O salmista foi enfático em dizer: Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque os teus mandamentos são a minha meditação (Sl 119.99). E noutro momento: muita paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço (Sl 119.165). Nota-se destes dois versículos que entendimento e paz o salmista diz experimentar quando medita nos mandamentos divinos, e não quando faz oração.
A leitura da Escritura leva ao conhecimento da verdade, e o crente que nela medita desenvolve uma mente espiritualmente sadia e sábia que o ajudará a encaminhar-se bem na vida, dando-lhe destreza para resolver os problemas com a sabedoria que vem do alto.
Vale lembrar que o  grande objetivo da Reforma Protestante foi colocar a Palavra de Deus ao alcance dos crentes, não para que ela se tornasse um amuleto ou fosse esquecida no criado mudo durante a semana, mas para que fosse objeto de leitura constante. Talvez seja possível  contar nos dedos o número de crentes que meditam ou ao menos leem a Bíblia durante a semana, e são exatamente aqueles que não meditam na Escritura os que mais andam a procurar orações ou  reuniões de oração para buscar solução de seus dramas.
Se o crente quer solucionar seus problemas, e é justo que queira, que se afeiçoe à Palavra que é a verdade, e ela o habilitará a proceder de forma mais segura em tudo.
É melhor parar de “ligar” para o céu e conectar-se imediatamente à Palavra de Deus que está ao alcance de todos, pois não haveria razão da Bíblia ser escrita a não ser com o objetivo de ser lida por aqueles que desejam alcançar o desenvolvimento da salvação.
A fé não anula a inteligência ou a racionalidade do crente, pelo contrário, quem se deixa tomar pela fé bíblica verá que ela o instigará a pensar, e a pensar melhor cada vez mais.
Portanto, ao invés de ficar promovendo reuniões de oração sem fim, os crentes deveriam ser estimulados a meditar na Palavra de Deus constantemente, com o alerta de que meditar é coisa bem diferente de simplesmente ler a Bíblia.
Quando as orações dos crentes são feitas na busca de solução de coisas simples, que a mente razoavelmente desenvolvida poderia resolver, a impressão que o ímpio passa a ter é que a conversão tornou o converso inapto e incapaz para a vida, pois tudo que tem que resolver ele recorre a Deus como se  não tivesse capacidade de refletir e decidir sobre qualquer delas.
Embora Deus não tenha um 0800, nem por isto os crentes estão largados a sua própria sorte, porque Ele deixou Sua Palavra a qual eles fazem bem em ler e meditar com frequência para ter uma mente mais capaz. E ao ler as Escrituras a própria oração se tornará em tudo mais coerente com os ditames da fé. 

Lutero de Paiva Pereira




segunda-feira, 12 de agosto de 2013

NEM SÓ DE PÃO



Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Mt 4.4), foi a resposta dada por Jesus ao Diabo quando este O instigava a transformar pedra em pão para matar sua fome no deserto.
Com tal afirmativa Jesus reconhecia em primeiro lugar que o homem precisa de pão para viver, pois ao afirmar que não só de pão ele viverá, implicitamente estava dizendo que de pão também, embora não exclusivamente dele necessite.
Admitir que o homem vive de pão, embora não somente dele, é o mesmo que dizer que a natureza humana tem necessidade inerente a sua realidade física que não pode ser negada, e que essa carência é satisfeita por coisas eminentemente materiais.
Por outro lado ao dizer que não só de pão o homem viverá, mas também da palavra que procede da boca de Deus Jesus indicava outro tipo de alimento que o homem igualmente tem necessidade, a saber, a palavra que procede da boca de Deus. Com isto fica certo que Jesus vê o homem como um ser físico e metafísico, ou seja, um ser que precisa de alimento material e imaterial ao mesmo tempo.
Negar ao homem sua natureza  física como se fosse somente metafísico, é fazer dele um ser eminentemente espiritual, o que é contrário a sua criação. 
Por outro lado, tratá-lo como um ser somente material como se não possuísse uma parte espiritual, é negar sua espiritualidade.
Vale lembrar que as Escrituras dizem que ao ser trazido a existência “Deus formou o espírito do homem dentro dele” (Zc 12.1).
Por final, ao dizer que o homem precisa não só do pão material, mas também da palavra que procede de Deus, Jesus indicava que a palavra que vem de Deus tem conotação de alimento, de modo que o homem dela não pode prescindir.
Como toda a palavra que procede de Deus está contida hoje na Bíblia Sagrada, é preciso dela o homem ouvir para alimentar-se espiritualmente bem.
Se em termos de saúde física o homem precisa  cuidar de sua alimentação para não comer algo contaminado e adoecer, o mesmo se dá em relação à sua saúde espiritual.
É importante que a apresentação da Palavra de Deus seja feita aos ouvidos dos homens de modo correto, e assim fazer para que não se torne  alimento contaminado que lhe traga dano ao espírito.
O pregador que  faz o auditório rir, chorar, ficar com medo ou somente curioso quando lhe expõe a Palavra de Deus, não está fazendo uso correto dela como palavra que alimenta, pois rir, chorar, ficar com medo ou curioso não é nem um pouco útil a saúde de ninguém.
Quando o crente deixa de ler e de meditar na Palavra de Deus com frequência, esse verdadeiro jejum do pão celestial poderá acarretar a perda do vigor espiritual.
Se ao dizer que o homem  vive de pão mas não somente de pão, Jesus estava certo, mas certo estava ao dizer que sem a palavra que procede de boca de Deus o homem não tem a vida que somente essa palavra pode lhe comunicar.
Portanto, para estar física e metafisicamente bem, o homem precisa tanto do pão, quanto da palavra de Deus.
Lutero de Paiva Pereira



segunda-feira, 29 de julho de 2013

MISSÃO BIZARRA


É normal gostar do anormal? Normalmente não o é, mas ultimamente parece ser. O bizarro, esquisito, extravagante tem sido o prato predileto de muitos, de modo que quando tudo está normal o prazer é pouco ou nenhum, já que somente o estranho agrada os sentidos.
Através da televisão o telespectador tem acentuado seu apreço pelo anormal, pois os programas de audiência são aqueles que tratam e retratam o mundo extravagante de pessoas e animais.
 O prazer pelo bizarro extrapola todos os campos e chega ao próprio mundo da religião.
No mundo tantas vezes alienado da religião, as missões chamadas de evangelizadoras seguem a mesma sina da televisão, e alimentam a bizarrice dos que lhe emprestam atenção.
Atualmente a missão tida como de valor, muitos entendem assim, deve ter como alvo o homem ou mulher que pode ser considerado exceção à espécie humana, relegando ao segundo plano o cidadão comum ou, como queiram, normal.
Assim, tornou-se propósito da evangelização o homem diferente, o homem estranho, o homem não convencional em razão de uma particularidade que carrega a qualquer título.
Criando subgrupos cada vez mais específicos dentro da espécie humana, as missões se dirigem focadas num público seleto que possa despertar uma emoção diferente naqueles que ouvem algo a seu respeito.
Deste modo, não pode mais causar estranheza a aparição de missões especializadas em alcançar pessoas cujos tipos nem sonhávamos existir em número suficiente para justificar um trabalho específico em sua direção.
Neste caso, é possível que em breve surjam missionários especializados em evangelizar gagos, os quais serão tidos como uma população excluída que não é ouvida por ninguém. 
Não faltará estatística para dizer que 17,38% dos habitantes da terra são gagos não alcançados.
Como se classifica uma pessoa como gago? Qual o parâmetro adotado para enquadrá-la nessa categoria? Ninguém sabe.
Mas o que se afirma é que 17,38% dos habitantes do planeta são gagos e precisam de missionários que fafa,fafa,fafalem a sua linguagem.
O missionário para o gago, obviamente, terá que gaguejar.
Existirão também as missionárias especializadas em mulheres com joanete.
Elas, segundo senso de 2012, são 6,39% da população feminina do Brasil. Portanto, é preciso arrecadar fundos para ir atrás destas pobres coitadas que “sofrem” com seu complexo.
Como conseguiram mensurar esse número?
Novamente ninguém sabe.
Talvez consultaram podólogos, pedicures e outros profissionais que trabalham com os pés, e partir de suas fichas de clientes puderam fazer esse levantamento.
O que não dizer dos missionários que têm como alvo pessoas que têm pé chato, e que correspondem a 11,39% da população masculina.
Nem precisa dizer que este levantamento também não tem base segura de verificação.
Por suporem que tais pessoas são socialmente excluídos e, portanto, padecem grande sofrimento de alma, além do cansaço físico que o pé chato ocasiona, os missionários se especializaram neste nicho, saindo correndo a procura deles. E se os missionários estão correndo ao seu encalce o pé chato deles não permitirá ir longe até serem “abatidos”.
Identificar uma pessoa de pé-chato simplesmente olhando para o seu rosto parece coisa difícil, mas vale a pena ir atrás dela para pescar ao menos um.
E quando esses missionários do bizarro tiverem êxito em sua missão, é possível que tragam gravados testemunhos dos “evangelizados”, depoimentos que o homem minimamente inteligente desconfiará da ausência da verdadeira conversão.
A mulher de joanete dirá que agora está feliz porque se sente livre para andar descalça na praia sem o complexo que outrora a fazia usar botas na areia; o de pé chato não economizará palavras para dizer que agora seu fôlego é outro. Restará o testemunho do gago. Bem,  como o gago continua do mesmo jeito ninguém tem paciência de ouvir suas palavras repetidas de forma incontida por todo o tempo da gravação.
Infelizmente é assim que caminha boa parte da humanidade religiosa, onde o anormal é o normal.
Se a pessoa normal não se enquadrar num grupo de anormais, é possível que nenhum missionário tenha prazer de ir ao seu encontro, nem a agência missionária disposição de arrecadar fundos para fazer missão em sua direção, pois ninguém mais se interessa pelo homem comum.
E para que a missão seja ainda mais interessante e desperte interesse nas pessoas de contribuir financeiramente para seu sucesso, é preciso que ela aconteça bem longe e, se possível, até mesmo noutro continente. Assim, os gagos alcançáveis devem ser do Azerbajão, as mulheres de joanete da Mongólia e os homens de pés chato da Malásia, pois se eles estiverem na própria cidade não tem graça alguma fazer missão ali.
Precisamos aprender que o evangelho é para todos os povos, tribos línguas e nações, e não para uma espécie especial dentro da espécie geral chamada raça humana. E ainda, que homens e mulheres que estão próximos de nós, mesmo não tendo nenhum “adjetivo” que os distingam dos demais, estes também precisam ouvir o evangelho.
Façamos, pois, missão, mas não a missão bizarra. E ao fazer missão tenhamos o cuidado de levar o evangelho e não mais do que isto ao ouvinte, pois o que ele precisa saber é de que sua reconciliação com Deus somente é possível através de Jesus Cristo.

Lutero Paiva Pereira