terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

HOMEM SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS



Fazer afirmativa implica em sustentá-la com outra afirmativa, de modo que quando se diz, por exemplo, que o dia está bonito assegura-se isto dizendo que o sol está brilhando e que a temperatura se mostra agradável. Se, por outro lado, ao se afirmar que o dia está bonito se diz também que a chuva é copiosa e a temperatura está baixa a ponto de incomodar, esta última assertiva torna falso o adjetivo da primeira. 
Tomando por base esta máxima uma das afirmativas clássicas que se ouve com freqüência em pregações baseadas em II Samuel 13.14, que trata do registro da escolha de Davi por Deus para ser o novo rei de Israel é que esse homem era totalmente conforme o coração de Deus. Com base na expressão Deus buscou para si um homem segundo o seu coração, os pregadores utilizam-se desta parte do texto para dizer que Davi era uma pessoa segundo ou exatamente igual ao conceito de homem que Deus tinha em seu coração. Portanto, a primeira afirmativa é: Davi era conforme Deus.
Seria isto uma afirmativa verdadeira? Não seria mais correto afirmar que com exceção de Jesus Cristo, não existiu um único homem na terra  segundo o coração de Deus, ou seja, alguém que estivesse conforme ou fosse segundo Deus desejasse que fosse?
Afinal, diz Romanos 3.10-11: não há um justo, nem um sequer; não há quem entenda, não há quem busque a Deus.
Quando o pregador se vale da expressão segundo o coração de Deus para afirmar que Davi preenchia todos os requisitos de Deus e era exatamente conforme Seu coração, uma afirmativa que o texto e a realidade parecem não autorizar, ele precisa fazer outra afirmativa que sustente essa ideia de Davi ser realmente um homem incomum, ou seja, não igual aos demais.
E para sustentar a afirmativa primeira, isto é, de que Davi era um homem segundo o coração de Deus, os que adotam esta interpretação do texto começam a procurar em Davi virtudes que Davi não tinha, e muitas vezes encobrir defeitos que Davi tinha, num processo complicado de dar a outros textos a interpretações que eles não acolhem. Assim, dentre outras virtudes atribuídas a Davi os pregadores dizem que ele era um homem segundo o coração de Deus porque se arrependia facilmente.
Mas seria esta uma afirmativa biblicamente sustentável, ou seja, de que ele se arrependia com facilidade e por esta razão era um homem segundo o coração de Deus?
Teria a Bíblia registros que poderiam apontar para esta virtude de Davi como sendo algo presente em seu viver humano?
 Com efeito, não há prova de que Davi se arrependia sempre e rapidamente como dizem alguns. Uma única ocasião que fala do seu arrependimento envolve a atuação do profeta Natã, mas  ali não dá para afirmar que Davi se arrependia com facilidade, pois da forma como foi confrontado, isto é, sem escapatória, sua atitude não teria como ser diferente do que foi.
Portanto, dizer que Davi era um homem segundo o coração de Deus sob este prisma, é lhe atribuir um status que ele nunca teve e talvez nem mesmo pensou ter.
É por afirmar erroneamente que Davi era um homem segundo o coração de Deus, diferente de todos os homens que não são segundo Seu coração, que os pregadores ficam fazendo malabarismos exegéticos evitando falar dos  pecados dele, tais como adultério e assassinato, coisas difíceis de serem atribuídas ao um homem segundo o coração de Deus.
Ora, se a Escritura mesmo faz questão de mostrar os pecados de Davi, não teria feito isto exatamente para dizer que Davi não era um homem segundo o coração de Deus, ao menos conforme a interpretação que ao texto tem sido dada?
Então, o que quer dizer da expressão segundo o coração de Deus constante de I Samuel 13.14, ou mesmo Atos 13.22 quando trata da escolha de Davi como rei de Israel?
Bem, é possível dizer que a expressão segundo o Seu coração signifique que Deus escolheu um homem conforme Seu coração desejou escolher, já que o outro rei, Saul, foi escolhido pelo povo conforme o coração do povo desejou.
Desta forma, quando o texto diz que Davi foi escolhido segundo o coração de Deus isto não quer dizer que Davi preenchia todos os requisitos de ser uma pessoa conforme Deus desejava que fosse e, portanto, totalmente diferente de mim e de você, que sabemos não sermos  segundo o coração de Deus.
Na verdade, o que o texto pode estar dizendo é que Deus escolheu Davi conforme Seu coração desejou fazer, e não mais do que isto.
Assim, que ninguém se desespere ao olhar para Davi e achar que ele é totalmente diferente de si, porque ele era segundo o coração de Deus e você não é.
Console-se, isto sim, com a experiência de Davi no sentido de que mesmo não sendo segundo o coração de Deus, Deus o escolheu segundo Seu coração desejou escolher.
Deste modo, você também poderá ser um homem segundo o coração de Deus ao ser escolhido por Deus através de Jesus Cristo, não porque você é segundo o coração de Deus, mas porque Deus segundo Seu próprio coração desejou escolhê-lo para ser dEle.
Estando em Cristo, aí sim, você se torna um homem ou uma mulher segundo o coração de Deus, porque Cristo é segundo o coração de Deus e quem está nele será visto por Deus segundo Seu coração.
Deus olha e escolhe alguém a partir de Seu próprio coração e não a partir do coração de quem é escolhido, de modo que a pessoa se torna segundo o coração de Deus porque foi escolhida, e não que foi escolhida porque era conforme o coração de Deus.
Portanto, não olhe para as virtudes de Davi para saber se você tem alguma delas a ponto de despertar em Deus o direito de ser escolhido, pelo contrário, olhe para a eficácia da obra de Cristo para encontrar ali o amor e a graça de Deus que O levaram a escolher você para ser dEle.
Para ser um homem segundo o coração de Deus entenda, então, as palavras do apóstolo Paulo: não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo (Tt 3.5).
Lutero de Paiva Pereira

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

VENTO DOUTRINÁRIO



Quando se faz o curso de piloto uma das forças da natureza que se estuda são os ventos, pois eles atuam de forma muito direta sobre o avião e sua navegabilidade.
Os chamados ventos de través, aqueles que sopram lateralmente na aeronave, por exemplo, devem ser bem observados pelo piloto, pois com facilidade eles deslocam o avião de sua rota, exigindo correção do voo para não comprometer a chegada ao aeroporto  programado.
O piloto deve ficar atento aos meios visuais ou aos instrumentos que possui na cabine para conferir se a proa está apontando para a direção certa, se o rumo se mantém na direção desejada e se o avião encontra-se na rota programada.
Quando o vento sopra da esquerda para a direita em relação a aeronave o piloto tem que “corrigir” o rumo “forçando” o avião a ir para a esquerda, e vice-versa,  compensando assim a atuação do vento.
Como os ventos sopram sempre, é bom o piloto se preparar  para enfrentar sua atuação para desenvolver uma navegação segura.
O apóstolo Paulo utilizando-se da figura do vento procura despertar a atenção da igreja dos efésios para que ficasse alerta quanto aos “ventos doutrinários” que sobre ela poderiam atuar, os quais  seriam capaz de comprometer sua caminhada  empurrando-a para destinto diferente daquele que fora proposto pelo evangelho.
Os “ventos doutrinários”, diz o escritor, tinham como origem o engano dos homens, os quais agindo com astúcia corrompem o coração daqueles que lhes dão acolhida.
Paulo escreve: Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente ( Ef. 4.14).
Para não sofrer a ação dos “ventos doutrinários ” Paulo diz que os crentes deveriam deixar de ser meninos incostantes, para ficarem firmes quando eles aparecessem.
“Ventos doutrinários” nunca cessaram e homens astutos e enganadores jamais deixaram de agir, e se um e outro sempre se fizeram presentes na história da igreja é prudente dizer que o risco de um desvio é inerente à própria fé, razão pela qual o estado de alerta deve ser mantido sempre.
Por isto a pregação deve atuar como um alimento capaz de desenvolver a maturidade dos crentes, ajudando-os a crescer na graça e no conhecimento de Cristo (2 Pe 3.18), pois somente esse crescimento é capaz de tirá-los do seu estado de menino e, consequentemente, de sua inconstância.
Assim, o pregador, o pastor, o evangelista, o mestre e quem quer que seja que se dedique ao ensino da Escritura na igreja deve ajudar seus ouvintes a cheguar a maturidade, ao pleno conhecimento da verdade (1 Tm 2;4).
Crentes que foram desviados da “rota da fé” e chegaram a “aeroportos” errados têm que fazer depois um longo voo de volta para retomar a rota de origem, e isto mesmo depois de terem seu “trem de pouso” e  “asas” danificadas pela “aterrizagem” feita em  lugar indevido.
Infelizmente a  história tem demonstrado que crentes levados por ventos doutrinarios a uma rota diferente de Cristo, chegaram a lugares terríveis e não poucos  encontram-se até hoje “ espatifados” e incapacitados na fé de alçar voo de volta.
São vítimas do que poderia ser chamado de “desastre aéreo espiritual”, e necessitam de socorro urgente para serem novamente trazidos à rota que os leva a Cristo e  sentirem prazer novamente em seguir o “plano de voo” que a Escritura estabeleceu.
Para quem não quer correr o risco de empreender “voo” em direção ao caos, utilizando-se de "rotas" impostas por ventos doutrinários o melhor mesmo  é seguir a orientação bíblica e caminhar em direção à maturidade, adquirindo capacidade de manter-se  firme mesmo quando ensinos e propostas de homens astutos e enganadores  tentam tirar seus  olhos  de Cristo para levá-lo a “aeroportos” clandestinos não “homologados” pela Escritura.
Lutero de Paiva Pereira.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Pentecostais dos séculos l e XXI


Igreja pentecostal do século XXI que se preze tem sua pregação assentada basicamente em três máximas de fé: curar ou operar maravilhas, expulsar demônio e profetizar.
Ou as três estão combinadas ou ao menos duas estão presentes no seu ritual ou 


Uma igreja pode enfatizar profecia e demônios; outra, demônios e cura, outra cura e profecia, ou combinações diferentes, mas em regra a maioria das que aderem ao movimento tem as três, isto é, a cura, a expulsão de demônios e a profecia como suas bandeiras, para atrair mais gente, pois será melhor ir onde existem todas  do que  somente onde duas são oferecidas.
Os membros esperam o culto sempre com muita ansiedade, pois vivem a expectativa de que Deus vai fazer coisas maiores e mais extraordinárias do que já fez, e cada final de semana é uma sensação nova a experimentar.
Para garantir casa cheia o pastor afirma que na próxima reunião o povo verá coisas ainda maiores, pois o poder será tremendo e os sinais, maravilhosos.
Com tudo isto aguçando a curiosidade não falta gente para  assistir o novo “espetáculo” sob promessas extraordinárias, principalmente agora quando a solução de problemas financeiros  também está garantida aos fiéis.
Quando estudamos a Escritura Sagrada observamos que aqueles que estiveram presentes no verdadeiro pentecostes, o que ocorreu no início da igreja, conforme está relatado no capítulo 2 do livro de Atos, eles não saíram profetizando, nem expulsando demônios, menos ainda divulgando cura divina.
Quando foram cheios do Espírito Santo o que os crentes "pentecostais" fizeram foi anunciar as grandezas de Deus (At 2.11), e a partir de então pregar a remissão dos pecados em Cristo Jesus.
Tanto assim que o primeiro discurso de Pedro se encerra nos seguintes termos: esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo (At 2.36).
Com tal prática, os que estiveram no derramamento do Espírito Santo caso se fizessem presentes por aqui hoje, seriam tidos como possuidores de um “fogo” sem calor, de um “poder” sem força, de uma “palavra” sem atração, pois ocupados somente em falar de Cristo, nada fazendo em termos de expulsar demônios, operar maravilhas e profetizar, sua mensagem esfriaria mais que esquentaria o ânimo dos ouvintes, e  esvaziaria a igreja.
Fica, então, a dúvida: quem são os verdadeiros e os falsos pentecostais? Os que anunciaram a Cristo, o poder de Deus, ou os que se dizem possuidores do poder divino para operar maravilhas, expulsar demônios e profetizar?
Que a Bíblia responda e ouça quem tem ouvidos.
É interessante notar pela Escritura que em termos de participação no reino de Deus muitas pessoas ouvirão de Jesus um dia: nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade (Mt 7.23).
Esta repulsa  se dirige a um certo tipo de pessoa, pois Jesus mesmo assegura que nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus (Mt 7.21).
E as pessoas que desejavam entrar no reino e não foram admitidas o que elas apresentavam como razão para terem esse direito era exatamente aquilo que fundamenta o movimento pentecostal moderno, ou seja, operar maravilhas, expulsar demônios e profetizar.
Está escrito: Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas (Mt 7.22)?
Elas dizem que expulsaram demônios, operaram maravilhas e profetizaram e, no entanto, Jesus não vê nestas coisas nada que tenha a ver com a vontade do Pai.
 Qual é, pois, a vontade do Pai?
A vontade do Pai é que o Filho seja crido e confessado como Senhor, e isto para salvar da condenação eterna o pecador, de modo que o Filho e Sua obra devem ser anunciados por aqueles que foram cheios do Espírito Santo.
O verdadeiro pentecostal, portanto, tem que pregar a Cristo e Cristo somente, e quem disto se distancia de Cristo se afasta.
Se Cristo dirá aos petencostais do século XXI apartai-vos de mim, o mais certo a fazer é aproximar-se dos pentecostais do século I e se ocupar em anunciar a Cristo para glória de Deus Pai.
Lutero de Paiva Pereira